Artigo atualizado em 18/08/2026
Todos sabemos o que é uma superstição, e muitos temos inclusive rituais supersticiosos. No entanto, o que é a superstição segundo a ciência?
A superstição é, na verdade, um efeito colateral da capacidade de aprender. Qualquer ser com capacidade de estabelecer conexões entre acontecimentos é vulnerável a ser supersticioso em algum nível.
De acordo com Rotter (1966), se uma pessoa acha que o que ganha com sua conduta está fora do seu controle (imprevisível, destino, outros poderes, sorte…), então ela tem uma crença ou expectativa de controle externo. Na verdade, alguns teóricos opinam que a conduta supersticiosa pode se desenvolver quando alguém está exposto a situações incontroláveis. Por outro lado, bem sabemos que é impossível controlar tudo o que acontece ao nosso redor.
Nesse sentido, o ser humano evoluiu e adquiriu capacidades que lhe permitem sobreviver nesse mundo, em boa parte, imprevisível. Assim, em certa medida todos nós abrigamos crenças e ilusões que nos permitem ter a sensação de controlar a nossa própria existência.
A superstição segundo a ciência: uma forma de adaptação
Bater na madeira, cruzar os dedos, evitar passar embaixo de uma escada ou ter um pé de coelho como amuleto pode servir para o seu cérebro, salvo as diferenças, como um doce para uma criança. As crianças adoram doces. Na verdade são usualmente empregados como reforço e nem sequer sabem o que são exatamente. O mesmo acontece com os rituais supersticiosos.
Muitas pessoas possuem amuletos ou rituais que as ajudam a fazer as coisas de uma maneira melhor. Podem até mesmo aumentar sua motivação de conquista ou sua autoconfiança.
O Pensamento Supersticioso Pessoal (PSP) daria nome à tendência que temos a pensar de uma maneira que permite nos preparar para nos defender das decepções, das desilusões e dos aborrecimentos. Esse estilo de pensamento faz parte do pensamento construtivo definido por Epstein (1998).
Nesse sentido, a confiança em si mesmo é decisiva. Por isso, qualquer fator, por mais irracional que seja, vai aumentar as chances de sobrevivência. Afinal, afirmar que a superstição pode ser adaptativa, por mais loucura que possa parecer, não deixa de ser verdade em muitos casos.
Experimentos relacionados à superstição
Nesses exemplos experimentais, indivíduos foram induzidos a pensar que suas condutas eram reforçadas. Mas, por exemplo, no caso do estudo de Koichi Ono, a conduta supersticiosa não se deve de todo ao reforço acidental. A hipótese de que a ausência de controle leva o ser humano a se comportar de maneira supersticiosa se confirma no experimento de Helena Matute.
Experimento de pontuações (Koichi Ono, 1987)
Baseando-se nos trabalhos de Skinner com pombas, usou câmaras experimentais que contavam com três alavancas e um painel no qual era registrada a pontuação. Foi pedido para vinte indivíduos que tentassem acumular a maior quantidade possível de pontos, mas não foi dito para realizarem nenhuma conduta determinada.
A equipe estava programada para entregar o reforçador – um ponto no marcador – sempre que passasse determinado período de tempo, sem que fosse preciso nenhuma ação. O que aconteceu foi que muitos participantes mostravam uma conduta supersticiosa sempre que ganhavam um ponto. Um deles até mesmo pulava na direção do teto pensando que assim receberia mais pontos.
Experimento de som (Helena Matute, 1993)
Foi utilizada a apresentação de um estímulo aversivo no computador. Nesse caso, se tratava de um barulho incômodo programado para desaparecer após um certo período de tempo. Os participantes foram divididos em dois grupos. No primeiro grupo, foi pedido para que os indivíduos tentassem parar o som com as teclas do computador. Aos membros do segundo grupo foi explicado que, fizessem o que for, não poderiam controlar o som.
Os resultados foram diferentes: os indivíduos do primeiro grupo criaram um padrão de conduta no momento de pressionar as teclas. Esses participantes desenvolveram uma ilusão de controle, que os levou a praticar condutas supersticiosas. Realmente chegaram a acreditar que se apertassem certas teclas do computador poderiam controlar a emissão ou não do som incômodo. Em contrapartida, o segundo grupo não fez nada, assim como foi pedido.
A ilusão como escudo
Nosso cérebro é constituído por uma rede de conexões que tende a realizar associações. Nós associamos palavras, lugares, sensações, acontecimentos, etc. Quando uma pessoa enxerga erroneamente sua conduta como possível causa, seu cérebro está sendo dominado pela “ilusão de controle”. Quando isso acontece de maneira mais genérica, atribuindo a causa ou a origem a um agente externo, como por exemplo um curandeiro, esse fenômeno se denomina “ilusão de casualidade”.
Herstein (1966) argumentou que é improvável que essa conduta se deva simplesmente ao reforço acidental. Em contrapartida, pressupõe-se que se uma pessoa é induzida pelo menos uma vez a ter um comportamento supersticioso, ela pode manter esse comportamento por reforço acidental. Em muitas sociedades são realizados rituais como danças para a chuva ou sacrifícios humanos. A título de reflexão: essas práticas podem ser atribuídas ao mero reforço acidental da conduta individual ou constituiriam uma estratégia que aumentaria as nossas chances de sobrevivência?
Superstições existem em praticamente todas as culturas humanas. Vamos explorar as mais comuns e entender a psicologia por trás delas:
1. Número 13 (Triscaidecafobia)
A Superstição
O número 13 é considerado de má sorte em muitas culturas ocidentais. Edifícios pulam do 12º para o 14º andar. Hotéis não têm sala 13. Algumas empresas aéreas não têm fileira 13.
Origem Histórica
- Última Ceia: Jesus e seus 12 apóstolos = 13 pessoas. Judas (traidor) era o 13º convidado.
- Mitologia Nórdica: Em um banquete divino, Loki (deus do caos) era o 13º convidado e matou Balder, o deus favorito.
- Idade Média: Sexta-feira 13 era o dia escolhido para execuções.
Psicologia Por Trás
Nosso cérebro busca padrões e significado, mesmo onde não existem. O número 13 ganhou associação com morte/traição, e agora nosso inconsciente ativa medo automaticamente. É aprendizado associativo.
Impacto Real
- Pessoas evitam viajar na sexta-feira 13
- Vendas diminuem nesse dia
- Alguns relatam “azar” (mas pesquisas mostram: não há mais acidentes nesse dia)
2. Gato Preto Cruzando o Caminho
A Superstição
Um gato preto cruzando seu caminho traz má sorte. Você deve evitar, mudar de rota ou fazer um ritual (como fazer um sinal da cruz).
Origem Histórica
- Idade Média/Caças às Bruxas: Gatos pretos eram associados a bruxaria e demônios
- Simbolismo: Preto = morte, escuridão, mistério
- Comportamento furtivo: Gatos são noturnos e silenciosos, o que alimentava superstições
Realidade Moderna
Gatos pretos são tão seguros e amáveis quanto qualquer outro animal. Alguns dados interessantes:
- Gatos pretos têm taxa de adoção menor porque pessoas os evitam (superstição prejudicial!)
- Alguns superstições colocam gato preto como sorte (Japão, Reino Unido)
Psicologia
Ilusão de controle: Acreditamos que evitar um gato preto nos protege. Faz você se sentir no controle em um mundo imprevisível.
3. Quebra de Espelho (7 Anos de Azar)
A Superstição
Se quebrar um espelho, você terá 7 anos de má sorte. É uma das superstições mais comuns no Ocidente.
Origem
- Antiguidade: Espelhos eram luxo raro. Quebrar era sinal de má administração, portanto “maldição”
- Alquimia: Espelhos refletem a “alma”. Quebrar significava danificar a proteção espiritual
- Numeral 7: Na numerologia, 7 é sagrado. Assim, 7 anos era um “ciclo completo de punição”
Curiosidade Histórica
Os Romanos acreditavam que a vida humana se renovava a cada 7 anos. Uma “maldição de 7 anos” era particularmente forte porque cobria um ciclo de vida completo.
Realidade
Quebrar espelho é apenas acidente. Não há correlação entre quebra de espelho e azar. Porém:
- Você fica ansioso esperando azar (profecia auto-realizável)
- Pessoas ansiosas cometem mais erros (confirmando “azar”)
Psicologia
Viés de confirmação: Você busca evidências de azar e as encontra porque está atento.
4. Sapato Colocado na Mesa
A Superstição
Colocar sapatos na mesa (ou cama) traz má sorte, morte ou conflito. É especialmente forte em culturas como Brasil, Reino Unido e Irlanda.
Origem Histórica
- Século XIX: Quando alguém morria, colocavam os sapatos dele na mesa como sinal. A superstição persistiu.
- Mineradores: Tradição de colocar sapatos de colegas mortos na mesa como homenagem fúnebre
- Presságio de morte: A superstição virou sinônimo de morte na casa
Variações Culturais
- Brasil: Colocar sapatos na cama é de má sorte
- Reino Unido: Sapatos na mesa significa morte
- Alguns lugares: Sapatos novos na mesa traz boa sorte (contradição!)
Psicologia
Contaminação simbólica: Nossa mente associa sapatos (sujos, usados) com “impureza”. Colocá-los em locais “puros” (mesa de refeição, cama) viola uma hierarquia mental.
5. Passar por Baixo de Escada
A Superstição
Passar por baixo de uma escada encostada na parede traz má sorte. Você deve contornar ou evitar.
Origem
- Geometria Sagrada: A escada forma um triângulo. Na antiguidade, o triângulo era símbolo sagrado da Santíssima Trindade
- Criminosos: Acredita-se que enforcados passavam por baixo de escadas (origem questionável)
- Lógica prática: Passar por baixo de escada é perigoso! Algo pode cair. A superstição pode ter uma origem prática.
Psicologia
A origem prática se tornou superstição simbólica. Nosso cérebro transformou “cuidado, algo pode cair!” em “má sorte sobrenatural!”
6. Abrir Guarda-Chuva Dentro de Casa
A Superstição
Abrir guarda-chuva dentro de casa traz má sorte. Deve ser feito apenas ao ar livre.
Origem Prática
- Antiguidade Egípcia: Guarda-chuva era símbolo de proteção divina. Usá-lo dentro (sob teto) era desrespeitoso com os deuses
- Século XIX: Guarda-chuvas antigos tinham pontas afiadas. Abrir dentro danificava móveis e machucava pessoas. “Má sorte” era aviso prático.
- Lógica caseira: Guarda-chuva molhado estraga piso. Superstição evita dano real.
Psicologia
Mais um exemplo de superstição com origem prática que evoluiu para crendice simbólica.
7. Derramar Sal é Má Sorte (Sal Jogado Por Cima do Ombro é Reversa)
A Superstição
Derramar sal traz má sorte. Para reverter, você joga sal por cima do ombro esquerdo.
Origem Histórica
- Antiguidade: Sal era extremamente valioso (moeda de troca). Desperdiçar era considerado mau agouro.
- Última Ceia: Judas derramou sal no quadro pintado da Ceia antes de trair Jesus
- Sal como proteção: Em várias culturas, sal afastava maus espíritos. Derramar = perder proteção
Por que jogar pelo ombro esquerdo?
- Cristianismo: Demônios ficam à esquerda. Joga-se sal para afastá-los
- Superstição compensatória: A ação “corrige” o erro através do ritual
Curiosidade Científica
Sal realmente desinfeta e preserva. A superstição pode ter origem em uma verdade prática: sal limpa e protege.
8. Não Contar Sobre Desejo de Aniversário
A Superstição
Se você contar seu desejo de aniversário, ele não se realiza. Deve guardar em segredo.
Origem
- Magia Simpática: Superstições antigas acreditavam que falar algo em voz alta a “libera para o universo” e pode ser “desvirtuada”
- Religioso: O desejo secreto é mais “puro” que o contado
- Psicológico: Guardar segredo cria sensação de “especialidade” do desejo
Psicologia Real (Efeito Positivo)
Interessantemente, existe pesquisa mostrando:
- Contar sobre uma meta reduz a probabilidade de realizar (desejo já “satisfeito” mentalmente)
- Guardar segredo aumenta motivação (desejo ainda incompleto)
Nesse caso, a superstição tem uma base psicológica real!
9. Diamante/Anel de Noivado Deve Ter Diamante
A Superstição
Casamento sem diamante traz má sorte ou é “incompleto”. O diamante é símbolo obrigatório.
Origem
- Antiguidade Romana: Acreditava-se que diamante tinha “poderes mágicos de união”
- Marketing Moderno (1930s): A empresa De Beers criou uma campanha publicitária massiva “A Diamond is Forever” conectando diamante com amor eterno
- Ilusão Cultural: O que era marketing virou “tradição” e depois “superstição”
Psicologia
Exemplo perfeito de como marketing pode criar superstições modernas. A ideia de que “diamante = verdadeiro amor” é uma invenção comercial que se tornou crença cultural.
10. Não Pode Usar Sapato Novo Pelo Avesso
A Superstição
Colocar sapato pelo avesso (ou calçar do pé errado) traz má sorte ou morte na família.
Origem
- Rituais Fúnebres: Cadáveres eram preparados com sapatos pelo avesso em algumas culturas como ritual de passagem para o outro mundo
- Inversão = Morte: Se o sapato está “ao avesso”, significa morte ao avesso (ou invertida)
- Alerta Prático: Colocar sapato errado = desatenção = acidentes. “Má sorte” era aviso.
Variação Cultural
Algumas culturas veem sapato novo pelo avesso como boa sorte (nova vida, novo caminho).
❓ Perguntas Frequentes sobre Superstições
P: Superstição é coisa de pessoas menos educadas?
R: Não. Estudos mostram que pessoas altamente educadas também têm superstições. A diferença é que:
- Pessoas menos educadas falam abertamente sobre superstição
- Pessoas mais educadas chamam de “intuição” ou “sincronicidade”
Atores, atletas e executivos têm rituais supersticiosos. É humano, não é ignorância.
[LINK: artigo-sobre-vieses-cognitivos-e-psicologia]
P: Por que superstições são tão comuns?
R: Nosso cérebro procura padrões e significado. Quando estamos ansiosos ou sem controle, superstições oferecem:
- Ilusão de controle: “Se eu evitar número 13, evito azar”
- Previsibilidade: O mundo parece menos caótico
- Comunidade: Compartilhar superstições nos conecta com outros
P: Superstições podem ser prejudiciais?
R: Geralmente não. Mas quando:
- Causam paralisia: Você não sai de casa na sexta-feira 13
- Substituem ação: Você reza em vez de estudar para prova
- Financeira: Você gasta muito em “rituais de proteção”
Superstição se torna problemática.
P: Como sair de uma superstição?
R: A melhor forma é exposição gradual + educação:
- Entenda a origem (remove mistério)
- Desafie a superstição pequenas coisas (quebra recipiente de plástico em vez de vidro)
- Colecione evidências que a superstição não funciona
- Procure a lógica prática por trás (muitas têm)
Força de vontade pura não funciona. Precisa de compreensão racional + ação gradual.
🧠 Psicologia Das Superstições: Por Nossos Cérebros Acreditam
O Viés de Confirmação
Uma vez que acredita em uma superstição, seu cérebro procura evidências que confirmem:
- Passou por baixo de escada → Teve um dia ruim → “Funciona!”
- Passed by black cat → Nada aconteceu → Brain ignores (não procura confirmar negativo)
Esse é o viés de confirmação: Vemos o que queremos ver.
Coincidência vs. Causa
Nossos cérebros são péssimos em probabilidade. Se:
- Você evita número 13
- No mês do número 13, nada ruim acontece
- Seu cérebro conclui: “Evitar número 13 me protegeu!”
Realidade: Ele evita acidentes a 99% das vezes, independente do número.
Aprendizado Associativo
Se você ouve “gato preto = má sorte” desde criança:
- Seu amígdala (medo) se associa com gato preto
- Agora, ver gato preto ativa resposta de medo automática
- Isso é aprendizado profundo, não é racional
Ilusão de Controle
Quando você sente falta de controle (vida caótica, estresse alto), superstições oferecem:
- Sensação de agência: “Eu controlo evitando isso”
- Redução de ansiedade: Ter um “plano” (mesmo se ilusório)
Por isso superstições aumentam em épocas de crise.
🎯 A Função Psicológica das Superstições
Superstições não são apenas “crendices”. Elas servem funções psicológicas reais:
| Função | Exemplo | Benefício |
|---|---|---|
| Controle | Evitar número 13 | Sensação de agência em situação caótica |
| Segurança | Sal jogado no ombro | Ritual reconfortante em situação de medo |
| Comunidade | “Não fale desejo em voz alta” | Conecta-se com tradição cultural |
| Aviso Prático | Evitar escada (queda) | Segurança disfarçada de superstição |
| Resiliência | “Isso vai passar” | Esperança em momentos difíceis |
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A superstição segundo a ciência
Fonte: A Mente é maravilhosa



